terça-feira, 6 de junho de 2017

Atendendo Por Nós Mesmos (Parte 3)





Não desmintam com a vida aquilo que dizem com a língua, pois este é o maior empecilho para o sucesso verdadeiro do seu trabalho. É grande impedimento à obra quando homens, durante a semana inteira e em privado, contradizem aquilo que pregamos publicamente da Palavra de Deus, pois não estamos ali para expor e conter sua loucura. Entretanto, maior impedimento há quando seus atos e atitudes contradizem sua língua. Se os senhores edificam com a boca durante uma hora ou duas horas em um ou dois dias, veja que não destruam tudo com as próprias mãos durante o restante da semana. Tal atitude incoerente faz que as pessoas percebam a Palavra de Deus como sendo apenas uma lenda inócua, faz da pregação nada mais que uma arenga sem sentido. Quem diz o que quer certamente fará o que diz. Uma palavra orgulhosa, altiva, contenciosa ou um ato cobiçoso corta o tronco de muito sermão e estraga os frutos de toda uma colheita.
Pergunto, pois, se, no temor de Deus, é importante ou não o verdadeiro sucesso do seu trabalho? Os senhores desejam ver a alma do seu ouvinte transformada? Caso
contrário, por que pregar? Para que estudar? Como poderão chamar a si mesmos de ministros de Cristo? Mas, se o estado da alma de seus ouvintes for mesmo  importante, certamente os senhores não desejarão estragar a obra em troca de nada.
Consideram o sucesso da obra, mas não estão dispostos a abrir mão de um pouco
para os pobres? Não suportam a injúria, a palavra mal-usada? Não se humilham
diante do mais fraco nem abrem mão de sua posição senhoril para ganhar uma
alma e cumprir sua missão? Os senhores não estão dispostos a ceder? Valorizam
tão pouco o sucesso verdadeiro que o vendem a preço de sucesso pessoal? A incoerência entre vida e pregação é um erro tangível na experiência de muitos
pastores. Estudam para pregar com exatidão, mas não estudam para viver com
retidão. A semana toda é pouca para estudar como falar por uma ou duas horas;
no entanto, uma hora parece muita coisa para estudar sobre como viver durante
a semana. Não querem usar uma palavra errada no sermão ou ser culpados de
algum erro de referência (o que é louvável, dado o peso e a santidade da questão),
mas não pensam sobre as afeições desordenadas e sobre as palavras e atos errados
no decurso da vida. Alguns homens pregam com esmero e vivem com displicência.
Mostram-se tão acurados no preparo do sermão, que fazem parecer uma virtude o pregar pouco a fim de melhor polir a linguagem de seus raros sermões, citando escritores eloquentes para adornar seu estilo (para os quais o principal ornamento é o louvor de si mesmo). São exigentes quanto aos sermões que ouvem e não lhes agrada quando alguém fala com sinceridade; antes, preferem o tédio e o abafamento dos afetos, suprimindo o coração em função de uma mente apenas
brilhante. Entretanto, quanto às questões do dia-a-dia, uma vez fora da igreja, tais
homens não têm cuidado com o que dizem. Pregam com precisão e vivem na imprecisão.
Que diferença há entre sua pregação e seu discurso diário! No sermão, não têm paciência com nenhum barbarismo, solecismo ou paralogismo38, mas toleram todo tipo de erro na vida e na conversa comum.
Certamente temos de tomar cuidado tanto com o que fazemos quanto com o
que dizemos. Se quisermos ser servos de Cristo, não o podemos ser apenas com os lábios, mas com obras: "não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante,  esse será bem-aventurado no que realizar" (Tg 1.25b). Assim como nossos ouvintes, nós também temos de ser "praticantes da palavra e não somente ouvintes" (Tg 1.22), a menos que estejamos enganando a nós mesmos. Temos de pregar doutrina e prática, ou melhor, a praticidade da doutrina. Temos de estudar tanto como viver bem quanto como pregar bem. Temos de pensar e repensar sobre como compor a vida de maneira a tratar da salvação dos homens não apenas nos sermões. Geralmente, quando se preparam para falar às suas congregações, os senhores se perguntam: "O que direi para alcançar as pessoas?". Se realmente se importam com suas almas, deveriam perguntar também: "Como viverei, como disporei minha vida de maneira coerente com o que prego, a fim de ser diligente na salvação das almas?". Irmãos, se a salvação das almas for realmente a sua missão para a glória de Deus, certamente desejarão realizá-la tanto no púlpito quanto fora dele. Empregarão todos os esforços para alcançar o alvo de Cristo. Indagarão a si mesmos tanto em relação ao dinheiro do bolso quanto em relação às palavras da boca: "Como entregarei tudo isso para o maior bem, em especial pelas almas dos homens?". Ah! Se este fosse o seu esforço diário - como usar para a glória de Deus as riquezas, as amizades e tudo mais que possuem, da mesma maneira como desejam empregar a língua - então veríamos o fruto do trabalho como nunca vimos. Entretanto, se os senhores apenas almejam o ministério do púlpito, não serão ministros exceto quando estiverem pregando.
Nesse caso, não serão dignos do respeito devido aos ministros de Cristo.

Richard Baxter
/Alef da Silva

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