quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Vida e Obra de David Brainerd






Certo jovem, franzino de corpo, mas tendo na alma o fogo do amor
aceso por Deus, encontrou-se na floresta, para ele desconhecida. Era tarde
e o sol já declinava até quase desaparecer no horizonte, quando o viajante,
enfadado da longa viagem, avistou a fumaça das fogueiras dos índios
"peles-vermelhas". Depois de apear e amarrar seu cavalo, deitou-se no
chão para passar a noite, agonizando em oração.

Sem ele o saber, alguns dos silvícolas o haviam seguido
silenciosamente, como serpentes, durante a tarde. Agora estacionavam
atrás dos troncos das árvores para contemplar a cena misteriosa de um
vulto de cara pálida, sozinho, prostrado no chão, clamando a Deus.

Os guerreiros da vila resolveram matá-lo, sem demora, pois,
diziam, os brancos davam uma aguardente aos peles-vermelhas, para,
enquanto bêbados, levar-lhes as cestas e as peles de animais, e roubar-lhes
as terras. Mas depois de cercarem furtivamente o missionário, que
orava,prostrado, e ouvirem como clamava ao "Grande Espírito", insistindo
que lhes salvasse a alma, eles partiram tão secretamente como chegaram.

No dia seguinte, o moço, não sabendo o que acontecera em redor,
enquanto orava no ermo, foi recebido na vila de uma maneira não
esperada. No espaço aberto entre as "wigwams" (barracas de peles) os
índios o cercaram e o moço, com o amor de Deus ardendo na alma, leu o
capítulo 53 de Isaías. Enquanto pregava, Deus respondeu a sua oração da
noite anterior e os silvícolas ouviram o sermão, com lágrimas nos olhos.
Esse cara-pálida chamava-se David Brainerd. Nasceu em 20 de abril
de 1718. Seu pai faleceu quando David tinha 9 anos de idade, e sua mãe,
filha dum pregador, faleceu quando ele tinha 14 anos.
Acerca de sua luta com Deus, no tempo da sua conversão, na idade
de vinte anos, ele escreveu.

"Designei um dia para jejuar e orar, e passei esse dia clamando
quase incessantemente a Deus, pedindo misericórdia e que ele abrisse
meus olhos para a enormidade do pecado e o caminho para a vida em
Jesus Cristo... Contudo, continuei a confiar nas boas obras... Então, uma
noite andando na roça, foi me dada uma visão da grandeza do meu
pecado, parecendo-me que a terra se abrira por baixo dos meus pès para
me sepultar e que a minha alma iria ao Inferno antes de eu chegar em
casa... Certo dia, estando longe do colégio, no campo, sozinho em oração,
senti tanto gozo e doçura em Deus, que, se eu devesse ficar neste mundo
vil, queria permanecer contemplando a glória de Deus. Senti na alma um
profundo amor ardente para com todos os homens e anelava que eles
desfrutassem desse mesmo amor de Deus.

"No mês de agosto, depois, senti-me tão fraco e doente, como
resultado de aplicar-me demais aos estudos, que o diretor do colégio me
aconselhou a voltar para casa. Estava tão fraco que tive algumas
hemorragias. Senti-me perto da morte, mas Deus renovou em mim o
conhecimento e o gosto das coisas divinas. Anelava tanto a presença de
Deus e ficar livre do pecado, que, ao melhorar, preferia morrer a voltar ao
colégio, e me afastar de Deus...Oh! uma hora com Deus excede infinitamente
todos os prazeres do mundo."

De fato, depois de voltar ao colégio, Brainerd esfriou em espírito,
mas o Grande Avivamento, dessa época, alcançou a cidade de New Haven,
o colégio de Yale e o coração de David Brainerd. Ele tinha o costume de
escrever diariamente uma relação dos acontecimentos mais importantes
da sua vida, passados durante o dia. É por esses diários escritos para si
próprio e não para o mundo ler, que sabemos da sua vida íntima de
profunda comunhão com Deus. Os seguintes poucos trechos servem como
amostras do que ele escreveu em muitas páginas de seu diário e
descobrem algo de sua luta com Deus, enquanto estudava para o
ministério:

"Fui tomado repentinamente pelo horror da minha miséria. Então
clamei a Deus, pedindo que me purificasse da minha extrema imundícia.
Depois a oração se tornou mui preciosa para mim. Ofereci-me
alegremente para passar os maiores sofrimentos pela causa de Cristo,
mesmo que fosse para ser desterrado entre os pagãos, desde que pudesse
ganhar suas almas. Então Deus me deu o espírito de lutar em oração pelo
reino de Cristo no mundo.

"Retirei-me cedo, de manhã, para a floresta, e foi-me concedido
fervor em rogar pelo avanço do reino de Cristo no mundo. Ao meio-dia,
ainda combatia em oração a Deus, e sentia o poder do divino amor na
intercessão.

"Passei o dia em jejum e oração, implorando que Deus me
preparasse para o ministério, e me concedesse auxílio divino e direção, e
que ele me enviasse para a seara no dia que ele designasse. Pela manhã,
senti poder na intercessão pelas almas imortais e pelo progresso do reino
do querido Senhor e Salvador no mundo... À tarde, Deus estava comigo
de verdade. Quão bendita a sua companhia! Ele me concedeu agonizar em
oração até ficar com a roupa encharcada de suor, apesar de eu me achar
na sombra, e de soprar um vento fresco. Sentia a minha alma
grandemente extenuada pela condição do mundo: esforçava-me para
arrebatar multidões de almas. Sentia-me mais dilatado pelos pecadores do
que pelos filhos de Deus, contudo anelava gastar a minha vida clamando
por ambos."Passei duas horas agonizando pelas almas imortais. Apesar de
ser ainda muito cedo, meu corpo estava molhado de suor... Se eu tivesse
mil vidas, a minha alma as teria dado pelo gozo de estar com Cristo...

"Dediquei o dia para jejuar e orar, implorando a Deus que me
dirigisse e me abençoasse na grande obra que tenho perante mim, a de
pregar o Evangelho. Ao anoitecer, o Senhor me visitou maravilhosamente
na oração; senti a minha alma angustiada como nunca... Senti tanta agonia
que me achava ensopado de suor. Oh! e Jesus suou sangue pelas pobres
almas! Eu anelava mostrar mais e mais compaixão para com elas.

"Cheguei a saber que as autoridades esperam a oportunidade de
me prender e encarcerar por ter pregado em New Haven. Fiquei mais
sóbrio e abandonei toda a esperança de travar amizade com o mundo.
Retirei-me para um lugar oculto na floresta e coloquei o caso perante
Deus."

Completados os seus estudos para o ministério, ele escreveu:
"Preguei o sermão de despedida ontem, à noite. Hoje, pela manhã
orei em quase todos os lugares por onde andei, e, depois de me despedir
dos amigos, iniciei a viagem para o habitat dos índios."

Essas notas do diário revelam, em parte, a sua luta com Deus
enquanto estudava para o ministério. Um dos maiores pregadores atuais,
referindo-se a esse diário, declarou: "Foi Brainerd quem me ensinou a
jejuar e orar. Cheguei a saber que se fazem maiores coisas por meio de
contato cotidiano com Deus do que por pregações."

No início da história da vida de Brainerd, já relatamos como Deus
lhe concedeu entrada entre os silvícolas violentos, em resposta a uma
noite de oração, prostrado em terra, nas profundezas da floresta. Mas,
apesar de os índios lhe darem a toda hospitalidade, concedendo-lhe um
lugar para dormir sobre um pouco de palha e, ouvirem o sermão,
comovidos, Brainerd não estava satisfeito e continuava a lutar em oração,
como revela seu diário:

"Continuo a sentir-me angustiado. À tarde preguei ao povo, mas
fiquei mais desanimado acerca do trabalho do que antes; receio que seja
impossível alcançar as almas. Retirei-me e derramei a minha alma
pedindo misericórdia, mas sem sentir alívio.

"Completo vinte e cinco anos de idade hoje. Dói-me a alma ao
pensar que vivi tão pouco para a glória de Deus. Passei o dia na floresta
sozinho, derramando a minha queixa perante o Senhor.

"Cerca das nove horas, saí para orar na mata. Depois do meio-dia,
percebi que os índios estavam se preparando para uma festa e uma
dança... Em oração, senti o poder de Deus e a minha alma extenuada como
nunca antes na minha vida. Senti tanta agonia e insisti com tanta
veemência que, ao levantar-me, só consegui andar com dificuldade. O
suor corria-me pelo rosto e pelo corpo. Reconheci que os pobres índios se
reuniam para adorar demônios e não a Deus; esse foi o motivo de eu
clamar a Deus, que se apressasse em frustrar a reunião idólatra. Assim,
passei a tarde orando incessantemente, pedindo o auxílio divino para que
eu não confiasse em mim mesmo. O que experimentei, enquanto orava, foi
maravilhoso. Parecia-me que não havia nada de importância em mim, a não ser
santidade de coração e vida, e o anelo pela conversão dos pagãos a Deus.

Desapareceram todos os cuidados, receios e anelos; todos juntos
pareciam-me de menor importância que o sopro do vento. Anelava que
Deus adquirisse para si um nome entre os pagãos e lhe fiz o meu apelo
com a maior ousadia, insistindo em que ele reconhecesse que eu 'o
preferia à minha maior alegria.' De fato, não me importava onde ou como
morava, nem da fadiga que tinha de suportar, se pudesse ganhar almas
para Cristo. Continuei assim toda a tarde e toda a noite."

Assim revestido, Brainerd, pela manhã, voltou da mata para
enfrentar os índios, certo de que Deus estava com ele, como estivera com
Elias no monte Carmelo. Ao insistir com os índios para que
abandonassem a dança, eles, em vez de matá-lo, desistiram da orgia e
ouviram a sua pregação, de manhã e à tarde.

Depois de sofrer como poucos sofrem, depois de se esforçar de noite e de
dia, depois de passar horas inumeráveis em jejum e oração, depois de
pregar a Palavra "a tempo e fora de tempo", por fim, abriram-se os céus e
caiu o fogo. Os seguintes excertos do seu diário descrevem algumas
dessas experiências gloriosas:

"Passei a maior parte do dia em oração, pedindo que o Espírito
fosse derramado sobre o meu povo... Orei e louvei com grande ousadia,
sentindo grande peso pela salvação das preciosas almas.

"Discursei à multidão extemporaneamente sobre Isaías 53.10:
Todavia, o Senhor agradou moê-lo'. Muitos dos ouvintes entre a multidão
de três a quatro mil, ficaram comovidos a ponto de haver um 'grande
pranto, como o pranto de Hadadrimom'. [Ver Zacarias 12.11)

"Enquanto eu andava a cavalo, antes de chegar ao lugar para
pregar, senti o meu espírito restaurado e a minha alma revestida com o
poder para clamar a Deus, quase sem cessar, por muitos quilômetros a fio.

"De manhã, discursei aos índios onde nos hospedamos. Muitos
ficaram comovidos e, ao falar-lhes acerca da salvação da sua alma, as
lágrimas correram abundantemente e eles começaram a soluçar e a gemer.

À tarde, voltei ao lugar onde lhes costumava pregar; eles ouviram com a
maior atenção quase até o fim. Nem a décima parte dos ouvintes pôde
conter-se de derramar lágrimas e clamar amargamente. Quanto mais eu
falava do amor e compaixão de Deus, ao enviar seu Filho para sofrer pelos
pecados dos homens, tanto mais aumentava a angústia dos ouvintes. Foi
para mim uma surpresa notar como seus corações pareciam transpassados
pelo terno e comovente convite do Evangelho, antes de eu proferir uma
única palavra de terror.

"Preguei aos índios sobre Isaías 53.3-10. Muito poder acompanhava
a Palavra e houve grande convicção entre os ouvintes; contudo, não tão
geral como no dia anterior. Mas a maioria ficou comovida e em grande
angústia de alma; alguns não podiam caminhar, nem ficar em pé: caíam
no chão como se tivessem o coração traspassado e clamavam sem cessar,
pedindo, misericórdia... Os que vieram de lugares distantes foram levados
logo à convicção, pelo Espírito de Deus.

"À tarde, preguei sobre Lucas 15.16-23. Havia muita convicção
visível entre os ouvintes, enquanto eu discursava; mas, ao falar
particularmente, depois, a alguns que se mostravam comovidos, o poder
de Deus desceu sobre o auditório 'como um vento veemente e impetuoso
e varreu tudo de uma maneira espetacular.

"Fiquei em pé, admirado da influência que se apoderou do
auditório quase totalmente. Parecia, mais que qualquer outra coisa, a força
irresistível de uma grande correnteza, ou dilúvio crescente, que derrubava
e varria tudo que encontrava na sua frente.

"Quase todos oravam e clamavam, pedindo misericórdia, e muitos
não podiam ficar em pé. A convicção que cada um sentiu foi tão grande,
que pareciam ignorar por completo os outros em redor, mas cada um
continuava a orar por si mesmo.

"Lembrei-me de Zacarias 12.10-12, porque havia grande pranto
como o pranto de 'Hadadrimom', parecendo que cada um pranteava à
parte.

"Parecia-me um dia muito semelhante ao dia em que Deus
mostrou seu poder a Josué (Josué 10.14), porque era um dia diferente de
qualquer dia que tinha presenciado antes, um dia em que Deus fez muito
para destruir o reino das trevas entre esse povo".

É difícil reconhecer a magnitude da obra de David Brainerd entre as
diversas tribos de índios, nas profundezas das florestas; ele não entendia
os seus idiomas. Se lhes transmitia a mensagem de Deus ao coração,
deveria achar alguém que pudesse servir como intérprete. Passava dias
inteiros simplesmente orando para que viesse sobre ele o poder do
Espírito Santo com tanto poder, que esse povo não pudesse resistir à
mensagem. Certa vez teve que pregar por meio de um intérprete tão
bêbado, que quase não podia ficar em pé, contudo, vintenas de almas
foram convertidas por esse sermão.

Ele andava, às vezes, perdido de noite no ermo, apanhando chuva
e atravessando montanhas e pântanos. Franzino de corpo, cansava-se nas
viagens. Tinha que suportar o calor do verão e o intenso frio do inverno.

Dias a fio passava-os com fome. Já começava a sentir a saúde abalada e
estava a ponto de casar-se (sua noiva era Jerusa Edwards, filha de Jonathan
Edwards) e estabelecer um lar entre os índios convertidos ou voltar e
aceitar o pastorado de uma igreja que o convidava. Contudo, reconhecia
que não podia viver, por causa da sua doença, mais que um ou dois anos e
resolveu então ''arder até o fim".

Assim, depois de ganhar a vitória em oração, clamou: "Eis-me
aqui, Senhor, envia-me a mim até os confins da terra; envia-me aos
selvagens do ermo; envia-me para longe de tudo que se chama conforto
da terra; envia-me mesmo para a morte, se for no teu serviço e para
promover o teu reino..."

Então acrescentou: "Adeus amigos e confortos terrestres, mesmo os
mais anelados de todos. Se o Senhor quiser, gastarei a minha vida, até os
últimos momentos, em cavernas e covas da terra, se isso servir para o
progresso do Reino de Cristo."

Foi nessa ocasião que escreveu: "Continuei lutando com Deus em
oração pelo rebanho aqui e, especialmente, pelos índios em outros lugares,
até a hora de deitar-me. Oh! como senti ser obrigado a gastar o tempo
dormindo! Anelava ser uma chama de fogo, constantemente ardendo no
serviço divino e edificando o reino de Deus, até o último momento, o
momento de morrer."

Por fim, depois de cinco anos de viagens árduas no ermo, de
aflições inumeráveis e de sofrer dores incessantes no corpo, Davi
Brainerd, tuberculoso e com as forças físicas quase inteiramente
esgotadas, conseguiu chegar à casa de Jônatas Edwards.

O peregrino já completara a sua carreira terrestre e esperava o
carro de Deus para levá-lo à Glória. Quando, no seu leito de sofrimento,
viu alguém entrar no quarto com a Bíblia, exclamou: "Oh! o querido Livro!
Breve hei de vê-lo aberto. Os seus mistérios me serão então desvendados!"
Minguando sua força física e aumentando sua percepção
espiritual, falava com mais e mais dificuldade: "Fui feito para a
eternidade. Como anelo estar com Deus e prostrar-me perante Ele! Oh!
que o Redentor pudesse ver o fruto do trabalho da sua alma e ficar
satisfeito! Oh! vem,Senhor Jesus! Vem depressa! Amém!" - e dormiu no
Senhor.

Depois desse acontecimento, a noiva de Brainerd, Jerusa Edwards,
começou a murchar como uma flor e, quatro meses depois também foi
morar na cidade celeste. Dum lado do seu túmulo, está o de David Brainerd
e do outro lado está o túmulo de seu pai, Jonathan Edwards.

O desejo veemente da vida de David Brainerd era o de arder como
uma chama, por Deus, até o último momento, como ele mesmo dizia:
"Anelo ser uma chama de fogo, constantemente ardendo no serviço
divino, até o último momento, o momento de falecer."

Brainerd findou a sua carreira terrestre aos vinte e nove anos.
Contudo apesar de sua grande fraqueza física, fez mais que a maioria dos
homens faz em setenta anos.

Sua biografia, escrita por Jonathan Edwards e revisada por João
Wesley, teve mais influência sobre a vida de A. J. Gordon do que qualquer
outro livro, exceto a Bíblia. Guilherme Carey leu a história da sua obra e
consagrou a sua vida ao serviço de Cristo, e nas trevas da Índia! Robert
McCheyne leu o seu diário e gastou a sua vida entre os judeus. Henrique
Martyn leu a sua biografia e se entregou para consumir-se dentro de um
período de seis anos e meio no serviço de seu Mestre, na Pérsia.

O que David escreveu a seu irmão, Israel Brainerd, é para nós um
desafio à obra missionária: "Digo, agora, morrendo, não teria gasto a
minha vida de outra forma, nem por tudo que há no mundo."

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