segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Santificação





“Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4.3).

A palavra santificação significa consagrar e separar para uso sagrado. Por conseguinte, elas são pessoas santificadas que estão separadas do mundo e separadas para o serviço de Deus. Santificação tem uma parte privativa e outra positiva.

I. A parte privativa consiste na remoção do pecado. O pecado é comparado ao fermento, que leveda; e à lepra, que contamina. A santificação remove “o velho fermento” (1Co 7). Embora não tire a existência do pecado, no entanto, elimina o amor a ele.

II. A parte positiva, que é a depuração espiritual da alma; que na Escritura é chamada de “renovação da nossa mente” (Rm 12.2), e a “coparticipação da natureza divina” (2Pe 1.4). Os sacerdotes sob a Lei não foram apenas lavados numa grande pia, mas também adornados com um glorioso vestuário (Êx 28.2); assim também a santificação não só lava do pecado, mas adorna com pureza. O que é santificação? É um princípio da graça produzido de forma salvadora, pelo qual o coração se torna santo e feito segundo o coração de Deus. Uma pessoa santificada tem não só o nome de Deus, senão também Sua imagem. Na exposição da natureza da santificação, vou mostrar as seguintes sete posições:
 
(1) A santificação é algo sobrenatural e é divinamente infundida. Estamos poluídos por natureza, e Deus toma para si a prerrogativa da limpeza: “Eu sou o Senhor que vos santifica” (Lv 21.8). As ervas daninhas crescem por si mesmas, no entanto as flores são plantadas. A santificação é uma flor, resultado da plantação do Espírito, daí que é chamada “A santificação do Espírito” (1Pe 1.2).

(2) A santificação é algo intrínseco; encontra-se principalmente no coração. Ela é chamada de “o ornamento do homem encoberto no coração” (1Pe 3.4). O orvalho molha a folha, a seiva está escondida na raiz. Similarmente, a religião de alguns consiste somente nas coisas externas, mas a santificação está profundamente enraizada na alma. “No oculto me fazes conhecer a sabedoria” (Sl 51.6).

(3) A santificação tem seu aspecto extenso: ela se espalha por todo o homem. “O Deus de paz vos santifique em tudo” (1Ts 5.23). Como a corrupção original depravou todas as faculdades — “Toda a cabeça está doente, todo o coração fraco”, nenhuma parte está sã, como se toda a massa de sangue estivesse corrompida, portanto, a santificação abrange toda a alma. Após a Queda, houve ignorância na mente; mas devido à santificação, nós somos “luz no Senhor” (Ef 5.8). Após a Queda, a vontade depravou-se; não havia apenas impotência para o bem, mas também obstinação. Na santificação, há uma maleabilidade abençoada na vontade; ela simboliza e harmoniza-se com a vontade de Deus. Após a Queda, os afetos foram deslocados para objetos errados; na santificação, eles são transformados em uma doce ordem e harmonia, a tristeza é colocada sobre o pecado, o amor sobre Deus e a alegria no céu. Assim, a santificação se espalha tanto quanto a corrupção original; ela vai ao longo de toda a alma: “o Deus de paz vos santifique em tudo”. Não é uma pessoa santificada, quem apenas é bom em alguma parte, senão quem é santificado em tudo como um todo; portanto, nas Escrituras, a graça é chamada de “novo homem”, não um novo olho ou uma nova língua, mas um “novo homem” (Cl 3.10). Um bom cristão, embora seja santificado em parte, no entanto, ele é santificado em todas as partes.

(4) Santificação é algo intenso e ardente. Qualitates suint in subjecto intensivo [Suas propriedades ardem dentro do crente]. “Fervorosos no espírito” (Rm 12.11). Santificação não é uma forma morta, mas está inflamada em zelo. Chamamos de água quente, quando esta chega ao terceiro ou quarto grau; desta maneira, santo é aquele cuja religião é aquecida a tal ponto que seu coração se consome por amor a Deus.

(5) A santificação é algo belo. Faz Deus e os anjos caírem em amor por nós. “Os ornamentos de santidade” (Sl 110.3). O que o sol é para o mundo, a santificação é para a alma, embelezando-a e adornando-a aos olhos de Deus. Aquilo que faz que Deus seja glorioso é necessário que também faça em nós da mesma forma. Santidade é a joia mais brilhante da Divindade. “Glorioso em santidade” (Êx 15.11). A santificação é o primeiro fruto do Espírito; é o início do céu na alma. A santificação e glória diferem apenas no grau: a santificação é a glória em semente, e glória é a santificação em flor. A santidade é a quintessência da felicidade.

(6) A santificação é algo permanente. “Sua semente permanece nele” (Jo 3.9). Aquele que é verdadeiramente santificado, não pode cair daquele estado. De fato, a santidade aparente pode ser perdida, as cores podem ser removidas; a santificação pode sofrer um eclipse. “Deixaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). A verdadeira santificação é uma flor da eternidade. “A unção que vós recebestes permanece em vós” (1Jo 2.27). Aquele que é verdadeiramente santificado não pode mais cair do que os anjos, que são fixos em suas órbitas celestes.

(7) A santificação é progressiva. Ela está em crescimento; ela é comparada a uma semente que cresce: primeiro a erva brota, depois a espiga, depois o milho maduro na espiga; assim os que já são santificados podem ser mais santificados (2Co 7.1). A justificação não admite graus; um crente não pode ser mais eleito ou justificado do que ele já é, mas ele pode ser mais santificado do que ele o é. A santificação sempre está progredindo, como o sol da manhã, que brilha gradualmente até ao meridiano completo. Diz-se do conhecimento que cresce e da fé que aumenta (Cl 1.10; 2Co 10.15). Um cristão está continuamente adicionando um côvado à sua estatura espiritual. Não acontece conosco o que aconteceu com Cristo, que recebeu o Espírito sem medida; pois Cristo não poderia ser mais santo do que era. Temos o Espírito apenas em medida, e a nossa graça ainda pode ser aumentada. Como Apeles, que depois de haver pintado um quadro, ainda estava aprimorando-o com o seu pincel. A imagem de Deus está desenhada em nós, mas imperfeitamente, portanto, devemos ainda ser melhorados e pintados com cores mais vivas. A santificação é progressiva; se não cresce, é porque ela não está viva. Então, você pode ver a natureza da santificação.


Quais são as falsificações de santificação? Há coisas que se parecem com a santificação, mas não são.

(1) A primeira falsificação de santificação é a virtude moral. Ser justo, ser temperante, ser de um comportamento justo, não ter um brasão manchado com um escândalo vergonhoso é bom, mas não o suficiente; isso não é santificação. Um campo de flores difere de um jardim de flores. Os pagãos alcançaram a moralidade; como Catão, Sócrates e Aristides. A civilidade é apenas a natureza refinada; não há nada de Cristo ali, e o coração pode ser sujo e impuro. Debaixo destas folhas de civilidade o verme da incredulidade pode estar escondido. Uma pessoa moral tem uma antipatia secreta contra a graça; ela odeia o vício, e ela odeia a graça tanto quanto o vício. A serpente tem uma bela cor, mas também uma picada. Uma pessoa adornada e educada com a virtude moral tem uma antipatia secreta contra a santidade. Os estoicos, que eram as cabeças do paganismo moralizado, eram os piores inimigos que Paulo tinha (At 17.18).

(2) A segunda falsificação de santificação é a devoção supersticiosa. Esta abunda no papado; adorações, imagens, altares, vestimentas e água benta, que eu olho como um delírio religioso, e está longe de ser santificação. Isso não acrescenta nenhuma bondade intrínseca a um homem, e não o faz um homem melhor. Se as purificações legais e lavagens, que eram designadas pelo próprio Deus, não fizeram aqueles que fizeram uso delas mais santos; e os sacerdotes, que usavam as vestes sagradas, e tinham o óleo santo derramado sobre eles, não foram mais santos, sem a unção do Espírito; então com toda certeza essas inovações supersticiosas na religião, que Deus nunca indicou, não pode contribuir com qualquer santidade aos homens. A santidade supersticiosa não custa grande trabalho; não há nada do coração nela. Se rezar alguns rosários, ou inclinar-se diante de uma imagem, ou borrifar-se com água benta fosse santificação e tudo quanto lhes é exigido para ser salvo, então o inferno estaria vazio, ninguém iria lá.

(3) A terceira falsificação da santificação é a hipocrisia; que acontece quando os homens fazem uma simulação de algo que eles não têm. Assim um cometa pode brilhar como uma estrela, um lustre pode brilhar por causa do ofício, o qual deslumbra os olhos dos espectadores. “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia” (2Tm 3.5). Estes são as lâmpadas sem óleo; sepulcros caiados, como os templos egípcios, que tiveram belas fachadas externas, mas em seu interior continham aranhas e macacos. O apóstolo fala da verdadeira santidade (Ef 4.24), denotando que há santidade que é espúria e fingida. “Tu tens nome de que vives, e estás morto” (Ap 3.1), como quadros e estátuas que estão destituídos do princípio de vida. “Nuvens sem água” (Jd 12). Eles fingem ser cheios do Espírito, mas são nuvens vazias. Esta exibição de santificação é um autoengano. Aquele que toma cobre em lugar de ouro, peca contra si mesmo; ele é a maior falsificação da santidade enquanto vive, mas engana a si mesmo quando ele morre. Fingir santidade quando ela não existe é uma coisa vã. Em que ajudaram as lâmpadas às virgens néscias quando elas precisaram de óleo? O que é a lâmpada da profissão sem o óleo da graça salvadora? Que conforto produzirá ao final uma mera pretensão de santidade? Aquilo que é pintado de dourado torna-se valioso? Uma pintura de vinho poderá refrescar o sedento? Ou uma santidade pintada será cordial na hora da morte? A santificação fingida não é algo em que devamos descansar. Muitos navios que tiveram nomes como “Esperança”, “O Amparo”, “O Triunfo”, naufragaram em rochas; assim, muitos que tiveram o nome “santos”, naufragaram no inferno.

(4) A quarta falsificação da santificação está na graça restritiva, quando os homens se abstêm do vício, embora não o odeiem. Este pode ser o lema do pecador: com prazer eu o faria, mas eu não me atrevo. O cão tem em mente o osso, mas tem medo do açoite da vara; assim os homens têm a mente para a luxúria, mas a consciência permanece como o anjo, com uma espada flamejante e amedrontadora: eles têm a mente voltada para a vingança, mas temem o inferno e isto é um freio para controlá-los. Não há mudança de coração; o pecado é controlado, mas não curado. Um leão pode estar em jaulas, mas ainda é um leão.

(5) A quinta falsificação da santificação é a graça comum, que é uma leve e passageira obra do Espírito, mas não equivale a conversão. Existe alguma luz no juízo, mas não é humildade; algumas picadas na consciência, mas eles não estão despertos. Isto se parece com a santificação, mas não é. Os homens podem ter convicções formadas neles, mas libertam-se delas novamente, como o veado, o qual, ao ser alvejado, sacode a seta. Após serem convictos, os homens vão para a casa da alegria, tomam a harpa para afastar o espírito de tristeza, e por isso todas [as convicções] morrem e tornam-se em nada.

Em que surge a necessidade de santificação? Em seis coisas:

(1) Deus nos chamou para isso. “Quem nos chamou pela sua glória e virtude” (2Pe 1.3); para a virtude, assim como para sua glória. “Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santificação” (1Ts 4.7). Não temos nenhum chamado para o pecado, podemos ter uma tentação, mas nenhum chamado para isso, nenhum chamado para sermos orgulhosos ou imundos; mas temos um chamado para sermos santos.

(2) Sem santificação não há evidência da nossa justificação. Justificação e santificação andam juntas. “Mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados” (1Co 6.11). “Perdoa a iniquidade” (Mc 7.18); há a justificação: “sujeitará as nossas iniquidades” (v. 19), Há também a santificação: “Saiu sangue e água” (Jo 19.34); sangue para a justificação; água para a santificação. Se não pudesse haver água do lado de Cristo para limpá-los, da mesma maneira nunca haveria sangue do seu lado para salvá-los.

(3) Sem santificação não temos nenhuma participação na nova aliança. O pacto da graça é o nosso alvará para o céu. A posse da aliança é que Deus será o nosso Deus. Mas quem está interessado na aliança, e pode invocar o benefício dela? Somente pessoas santificadas. “E dar-vos-ei um novo coração, e porei o meu Espírito dentro de vós, e eu serei o vosso Deus” (Ez 36.26). Se um homem fizer um testamento, ninguém senão certas pessoas, são nomeadas no testamento, e podem reclamá-lo, assim Deus fez seu testamento, mas este é restringido e limitado apenas para pessoas santificadas, e é uma grande presunção para quem não é santificado reivindicar o testamento.

(4) É impossível ir para o céu sem santificação. “Sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Deus é um Deus santo, e Ele não suportará a presença de alguma criatura não santa perto dEle. Um rei não sofrerá a presença de um homem que tenha uma praga de úlceras no seu corpo. O céu não é como a arca de Noé, onde os animais limpos e os imundos entraram. Nenhum animal impuro entrará na arca celestial; porque embora Deus sofra a presença do pecador enquanto está na terra, no entanto, ele nunca sofrerá no céu ser incomodado com tamanha repugnância. Aqueles que mergulham no pecado estão aptos para ver a Deus? Será que Deus vai colocar essas víboras em Seu seio? “Sem santidade ninguém verá o Senhor”. É o olho limpo que vê um objeto brilhante: e somente um coração santo pode ver Deus em Sua glória. Os pecadores podem ver a Deus como um inimigo, mas não como um amigo; ter uma visão aterrorizadora dEle, mas não uma visão beatífica; ver a espada flamejante, mas não a arca. Oh, portanto, quão grande é a necessidade da santificação!

(5) Sem santificação todas as nossas coisas sagradas estão contaminadas. “Nada é puro para os impuros” (Tt 1.15). Nos termos da lei, se um homem, que estivesse imundo por um corpo morto, carregasse um pedaço de carne santa na sua túnica, a carne santa não a limparia e, ainda, seria poluída por ela (Ag 2.12,13). Este é um símbolo do pecador contaminando oferecendo sua santa oferta. Um estômago doente faz indigesta a melhor comida; assim um coração não santificado contamina orações, ofertas e sacramentos. Isto demonstra a necessidade da santificação. A santificação faz com que nossas coisas santas sejam aceitas. Um coração santo é o altar que santifica a oferta; se não é para satisfação, o será para aceitação.

(6) Sem santificação não podemos mostrar nenhum sinal da nossa eleição (2Ts 2.13). A eleição é a causa da nossa salvação, mas a santificação é a nossa evidência. A santificação é característica das ovelhas eleitas de Cristo.

Quais são os sinais de santificação?

Em primeiro lugar, o fato de sermos santificados os faz lembrar o momento em que eles não eram santificados (Tt 3.3). Nós estávamos no nosso sangue, e então Deus nos lavou com água, e nos ungiu com o óleo (Ez 16.9). As árvores de justiça que florescem e produzem amêndoas, fazem lembrar quando elas eram como a vara seca de Arão, quando não florescia nenhuma santidade. A alma santificada lembra quando estava afastada de Deus por causa da ignorância e vaidade, e quando a graça implantou nela a santidade.

Um segundo sinal da santificação é a habitação do Espírito. “O Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14). Assim como o espírito imundo habita nos ímpios e os leva ao orgulho, luxúria, vingança e o diabo entra nesses porcos (At 5.3), assim o Espírito de Deus habita em eleitos, como seu guia e consolador. O Espírito possui os santos. O Espírito de Deus santifica a imaginação, tornando os pensamentos a um estado santo; e santifica a vontade, colocando uma nova preferência sobre ela, graças à qual ela está inclinada para o bem. Aquele que é santificado tem a influência do Espírito, embora não a essência.

Um terceiro sinal de santificação é uma antipatia contra o pecado (Sl 119.104). Um hipócrita pode deixar o pecado, mas ele o ama; assim como uma serpente despoja-se de sua pele, mas mantém seu veneno; mas de uma pessoa santificada pode-se dizer que ela não só deixa o pecado, mas o detesta. Como existem antipatias entre a natureza da videira e o louro, assim, em uma alma santificada há uma antipatia santa contra o pecado; e antipatias nunca podem ser conciliadas. Devido a um homem ter antipatia contra o pecado é impossível a ele deixar de se opor aquele, e buscar a destruição do mesmo.

Um quarto sinal de santificação é o desempenho espiritual dos deveres, com o coração, e a partir do princípio do amor. A alma santificada ora por amor à oração e “chama o sábado deleitoso” (Is 58.13). Um homem pode ter dons ao ponto de ser admirado; ele pode falar como um anjo vindo do céu, mas ele pode ser carnal nas coisas espirituais; seus serviços podem vir de um princípio não regenerado, nem serem realizados sobre as asas do prazer no dever. A alma santificada adora a Deus no Espírito (1Pe 2.5). Deus não julga os nossos deveres por seu comprimento, mas pelo amor de onde brotam.

Um quinto sinal é uma vida bem ordenada. “Sede vós também santos em toda maneira de viver” (1Pe1.15). Onde o coração é santificado a vida também o será. O templo tinha ouro por fora e como também por dentro. Como em uma moeda não existe somente a imagem do rei por um lado, mas também sua inscrição pelo outro, assim onde há santidade, não somente existe a imagem no coração, senão também, uma inscrição de santidade escrita na vida. Alguns dizem que eles têm um bom coração, mas suas vidas são depravadas. “Há geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” (Pv 30.12). Se a água está suja no balde, é porque não está limpa no poço. “A filha do rei é toda ilustre lá dentro” (Sl 45.13). Há santidade no coração. “Sua roupa é de ouro”. Há santidade de vida. A graça é mais bela quando a sua luz brilha de tal forma que outros possam vê-la; este adorna a religião, e faz prosélitos da fé.

Um sexto sinal é a resolução firme. Ele está resoluto em nunca largar sua santidade. Se os outros a reprovarem, ele a amará mais, assim como a água ao ser borrifada sobre o fogo, o levará queimar mais. Ele diz como Davi, quando Mical o repreendeu por dançar diante da arca, “Se isto é ser vil, vou ser ainda mais vil” (2Sm 6.22). Embora os outros o persigam por sua santidade, diz ele, como Paulo: “Nenhuma dessas coisas me comovem” (At 20.24). Ele prefere a santidade à segurança, e manter sua consciência limpa do que a sua pele ilesa. Ele diz como Jó: “À minha justiça me apegarei e não a largarei” (Jó 27.6). Ele abre mão da sua vida antes do que da sua consciência.

Primeira Aplicação: A coisa principal que um cristão deve cuidar é a santificação. Este é o “unuin necessarium”, a única coisa necessária. A santificação é o nosso mais puro estado, que nos faz como o céu, adornado com estrelas; é a nossa nobreza, por ela somos nascidos de Deus e participantes da natureza divina; é nossa riqueza, e assim comparada a colares de joias e correntes de ouro (Ct 1.10).

Ela é o nosso melhor certificado para o céu. Que evidência temos, além dela? Temos conhecimento? Também o diabo. Professamos alguma religião? Satanás muitas vezes aparece na capa de Samuel, e transforma-se em anjo de luz. Mas o nosso certificado para o céu é a santificação. A santificação é a primícia do Espírito; a única moeda circulante no outro mundo.

A santificação é a prova do amor de Deus. Não podemos conhecer o amor de Deus, pela saúde que Ele nos dá, ou pela riqueza ou sucesso; senão que pelo fato dEle imprimir Sua imagem de santificação em nós pelo pincel do Espírito Santo. Oh! A miséria dos que são destituídos do princípio de santificação: Eles estão espiritualmente mortos (Ef 2.1). Apesar de respirarem, eles não vivem. A maior parte do mundo está em um estado não santificado. “O mundo jaz no Maligno” (Jo 5.19). Isto é, a maior parte do mundo. Muitos se dizem cristãos, mas excluem a palavra santos. Você pode também chamá-lo de um homem inteligente, aquele cristão busca. E, o que é pior, alguns estão em tal grau de perversidade, que odeiam e zombam da santificação, eles a odeiam. Se já é ruim rejeitá-la, é ainda pior odiá-la. O que eles abraçam é a forma da religião, mas odeiam o poder dela; assim como o abutre detesta os cheiros agradáveis, da mesma forma eles detestam os perfumes da santidade. Eles dizem isso em escárnio, esta é a sua “santidade”! Para ridicularizar a santificação defendem um alto grau de ateísmo, e isto é neles uma marca sombria de reprovação. Ismael foi expulso da família de Abraão por escarnecer (Gn 21.9); da mesma maneira, zombar da santidade acarretará ser expulso do Céu. Segunda aplicação: Acima de tudo sigam a santificação. Busque a graça mais do que o ouro. “Guarda-a, pois ela é a tua vida” (Pv 4.13).

Quais são os principais incentivos para a santificação?

(1) É a vontade de Deus que sejamos santos, como diz o texto, “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação”. Assim como a palavra de Deus deve ser a regra, também deve ser Sua vontade a razão das nossas ações. Esta é a vontade de Deus, a nossa santificação. Talvez não seja a vontade de Deus que sejamos ricos, mas é a vontade dele que sejamos santos. A vontade de Deus é a nossa garantia.

(2) Jesus Cristo morreu para nossa santificação. Cristo derramou seu sangue para lavar nossa impureza. A cruz era tanto um altar quanto um lavatório. “Quem deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade” (Tt 2.14). Se pudéssemos ser salvos sem santidade, Cristo não precisaria ter morrido. Cristo morreu, não somente para nos salvar da ira, mas também do pecado.

(3) Santificação nos torna semelhantes a Deus. Foi o pecado de Adão o querer ser como Deus em onisciência, mas devemos esforçar-nos para sermos como Ele em santidade. É num espelho limpo que nós podemos ver o rosto, e é num coração santo em que algo de Deus pode ser visto. Nada de Deus pode ser visto em um homem não santificado, mas você pode ver uma pintura de Satanás nele. A inveja é o olho do diabo, a hipocrisia seu pé fendido; mas nada da imagem de Deus pode ser visto nele.

(4) A santificação é algo a qual Deus muito ama. Não são os adornos exteriores, nobreza social ou a grandeza mundana que atraem o amor de Deus, mas um coração adornado com santidade. Cristo nunca admira nada a não ser a beleza da santidade: Ele menosprezava os edifícios gloriosos do templo, mas admirava a fé da mulher, e disse: “Ó, mulher, grande é a tua fé”. O Amor fundatur similitudine [O amor baseia-se na similaridade]. Como um rei se agrada em ver sua imagem em uma moeda, do mesmo modo onde Deus vê sua imagem, aí Ele põe Seu amor. O Senhor tem dois céus para habitar, e o coração santo é um deles.

(5) Santificação é a única coisa que nos faz diferentes dos ímpios. O povo de Deus tem Seu selo sobre eles. “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2Tm 2.19). Os piedosos são selados com um selo duplo, o selo da eleição, “O Senhor conhece os que são seus” e um selo de santificação: “e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade”. Este é o nome pelo qual o povo de Deus é conhecido, “O povo da tua santidade” (Is 63.18). Assim como a castidade distingue uma mulher virtuosa de uma prostituta, a santificação distingue o povo de Deus dos outros. “Vós tendes recebido a unção do Santo” (Jo 2.20).

(6) É tão grande a vergonha de ter o nome de um cristão, mas carecer de santidade, ou ter um nome de mordomo e carecer de fidelidade; ou o nome de uma virgem, e não possuir castidade. Isto expõe a religião ao opróbrio, como ser batizado em nome de Cristo, enquanto se é profano, e possui olhos cheios de lágrimas no Sabath, e nos dias da semana os olhos cheios de adultério (2Pe 2.14); ser tão devoto à mesa do Senhor, como se os homens estivessem o céu, e assim a profanar na semana seguinte, como se eles saíssem do inferno; ter o nome de cristãos, sendo profano é um escândalo para a religião, e faz com que os caminhos de Deus sejam blasfemados.

(7) Santificação se é adequada para o céu: “Quem nos chamou pela sua glória e virtude” (2Pe 1.3). A glória é o trono, e a santificação é o degrau pelo qual subimos a ele. Como você primeiro limpa o vaso para depois despejar o vinho nele; assim Deus em primeiro lugar, nos purifica pela santificação e, em seguida, derrama o vinho da glória. Salomão foi ungido com o óleo primeiro, e só então foi rei (1Rs 1.39). Primeiro Deus nos unge com o óleo sagrado do Seu Espírito, e em seguida, põe a coroa da felicidade sobre as nossas cabeças. A pureza do coração e ver a Deus estão ligados entre si intimamente (Mt 5.8).


Como a santificação pode ser alcançada?

(1) Familiarize-se com a Palavra de Deus. “Santifica-os na tua verdade” (Jo 17.17). A Palavra é tanto um espelho para nos mostrar as manchas de nossa alma, como um lavatório para nos limpar. A Palavra tem um poder transformador em si mesma; ela ilumina a mente e consagra o coração.

(2) Obtenha fé pelo sangue de Cristo. “Tendo purificado os seus corações pela fé” (At 15.9). Um toque de fé purifica. Nada pode ter uma força maior sobre o coração para santificá-lo do que a fé. Se eu acredito que Cristo e Seus méritos são meus, como posso pecar contra Ele? A fé que justifica faz o que a fé miraculosa faz no sentido espiritual, ela remove montanhas, as montanhas do orgulho, luxúria, inveja. A fé e o amor ao pecado são inconsistentes.

(3) Anseie o Espírito. Isto é chamado de: “a santificação do Espírito” (2Ts 2.13). O Espírito santifica o coração, como o relâmpago purifica o ar, e como o fogo refina os metais. Omne agens generat simile sibi. [O Espírito enquanto trabalha gera sua própria semelhança em todas as partes]. O Espírito imprime de sua própria santidade no coração, assim como um carimbo imprime sua semelhança sobre a cera. O Espírito de Deus em um homem o perfuma com a santidade e torna seu coração um mapa do céu.

(4) Relacione-se com pessoas santificadas. Elas podem, mediante seus conselhos, orações e exemplo santo, serem um meio de torná-lo santo. Como a comunhão dos santos está em nosso credo, então, estes devem ser nossa companhia. “Aquele que anda com os sábios será sábio” (Pv 13.20). Associação gera assimilação.

(5) Ore pela santificação. Jó propõe uma pergunta: “Quem do imundo tirará o puro?” (Jó 14.4). Deus pode fazê-lo. De um coração impuro Ele pode produzir graça. Oh! Faça da oração de Davi a sua: “cria em mim um coração puro, ó Deus” (Sl 51.10). Derrama o teu coração diante do Senhor, dizendo: Senhor, o meu coração não santificado contamina tudo o que toca. Não é adequado que eu viva com tal coração, pois ele não pode honrar-Te; nem posso morrer em tal coração, pois não poderei ver-Te. Oh cria em mim um coração novo! Senhor, consagra o meu coração, e torna-o Teu templo, e os teus louvores serão cantados ali para sempre.

Terceira Aplicação: Será que Deus já trouxe uma coisa pura de uma impura? Já santificou você? Então, vista esta joia da santificação com gratidão. “Dando graças ao Pai, que nos fez idôneos para participar da herança” (Cl 1.12). Tu cristão, podes contaminar-te, mas não santificar-te a ti mesmo; a não ser que Deus o faça, Ele não só tem acorrentado o pecado, mas também tem mudado a tua natureza, e te fez como a filha de um rei, toda gloriosa por dentro. Ele colocou sobre ti a couraça da santidade, que, embora possa ser golpeada, nunca poderá ser atravessada. Há alguém aqui que é santificado? Deus fez mais por você do que milhões de pessoas, os quais podem ser inteligentes, mas não são santificadas. Ele fez mais por você do que se Ele te tivesse feito filho de príncipes, e te tivesse feito cavalgar sobre as alturas da terra.

Você está santificado? O Céu começou em você; pois a felicidade nada mais é do que a quintessência da santidade. Oh, quão agradecido você deve estar para com Deus! Faça como aquele cego no evangelho fez depois que ele recuperou a vista, ele “seguiu Cristo, glorificando a Deus” (Lc 18.43). Faça que o céu ouça os louvores a Deus.


Thomas Watson,
/Alef da Silva

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