segunda-feira, 7 de julho de 2014

Salmo 119



Este salmo não tem título nem é mencionado o nome de nenhum autor. É O SALMO MAIS LONGO e este já é um nome suficientemente distintivo para ele. No tamanho é igual a vinte e dois salmos que tenham a média do comprimento dos Salmos dos Degraus. E não é só o comprimento; porque supera também na amplitude de pensamento, profundidade de sentido e intensidade de fervor. É como a cidade santa que é quadrangular, com altura e largura iguais. Muitos leitores superficiais têm imaginado que ele toca numa corda só, e tem abundantes repetições e redundâncias piedosas, mas isto surge da pouca profundidade da mente do próprio leitor; os que estudaram este hino divino, e notaram cuidadosamente cada linha, ficam pasmos diante da variedade e profundidade do pensamento. Usando apenas poucas palavras, o escritor produziu alterações e combinações de sentido que demonstram sua familiaridade santa com o tema, e a engenhosidade santificada de sua mente. Ele nunca se repete, porque se o mesmo sentimento reaparece, está em um novo contexto, e assim exibe outra variação de sentido. Quanto mais se estuda, mais revigorante ele se torna.

Como aqueles que bebem a água do Rio Nilo gostam mais dela cada vez que a tomam, assim este salmo se torna mais completo e fascinante quanto mais freqüentemente se volta a ele. Não contém uma só palavra inútil; as uvas deste cacho estão quase a explodir com o vinho novo do reino.

Quanto mais se olha neste espelho de um coração gracioso tanto mais se enxerga. Plácido sobre a superfície como o mar de vidro diante do trono eterno, em suas profundezas há um oceano de fogo, e aqueles que o miram com devoção não só verão o brilho, como sentirão o calor da chama sagrada. Está carregado de sentido sagrado, e tem tanto peso como massa. Muitas vezes temos clamado durante o estudo: "Ai, que profundidade!". Mas essa profundidade se esconde sob uma simplicidade aparente, como bem afirmou sabiamente Agostinho; e isso torna a exposição mais difícil. Sua obscuridade está escondida atrás de um véu de luz, e por isso só a descobrem aqueles
que estão intensamente determinados, não só a ver a palavra, mas, como os anjos, a observá-la por dentro.

Este salmo é alfabético. Oito versículos começam com uma letra, e depois outros oito com a letra seguinte, e assim o salmo todo procede com grupos de oito através das vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Além disso, há múltiplas aposições de sentido, e outros pontos com aquelas formalidades estruturais que agradam a mente oriental - formalidades muito semelhantes àquelas com as quais nossos poetas mais antigos se deleitavam. Assim o Espírito Santo condescendeu falar com homens em formas que atraíam a atenção e ajudavam a memória. Ele é muitas vezes claro ou elegante em sua maneira, mas não deixa de ser exótico ou formal se com isso seu plano de instrução pode ser alcançado com mais segurança. Também não despreza contrações ou formas artificiais, e assim pode fixar seu ensino na mente. Isaac Taylor explanou muito bem esse fato: "No sentido mais estrito, esta composição é condicionada; apesar de ser, no sentido mais elevado, uma  expressão de vida espiritual; e assim, ao encontrar estes elementos aparentemente opostos, intimamente mesclados neste salmo, uma lição plena de sentido é silenciosamente transmitida àqueles que querem recebê-la - e a transmissão das coisas de Deus ao espírito humano não é de modo algum prejudicada ou impedida, e muito menos desviada por modos soltos de comunicação  que indicam ser mais adaptados à infância e à capacidade juvenil do interlocutor".

Autor

Como os críticos desta linha costumam não ter solidez na doutrina nem espiritualidade no tom, nós gravitamos na direção oposta, por uma suspeita natural de tudo que vem de fonte tão insatisfatória. Cremos que Davi escreveu este salmo. É davídico em tom e expressão, e confere com a experiência de Davi em muitos pontos interessantes. Quando éramos moços nosso professor o chamava de "livro de bolso de Davi" e nós nos inclinamos à essa opinião de que aqui temos o diário do personagem real escrito em vários tempos através de uma vida longa. Não, não podemos ceder este salmo para o inimigo. "Este é o espólio de Davi". Depois de muita leitura de um autor, chega-se a conhecer seu estilo, e adquire-se certo discernimento pelo qual sua composição é detectada mesmo se seu nome estiver oculto; sentimos uma espécie de certeza crucial de haver a mão de Davi nesse salmo, sim, de ser completamente seu.

Assunto

trata de várias maneiras, mas poucas vezes omite a menção da palavra do Senhor em cada versículo sob um ou outro dos muitos nomes pelos quais ele o conhece; e mesmo que o nome não esteja lá, o tema é ainda perseguido com entusiasmo em todas as estrofes. Quem escreveu este maravilhoso cântico estava impregnado dos livros da Escritura que possuía. Andrew Bonar conta de um cristão simples numa casa de fazenda que tinha meditado sobre a Bíblia toda, três vezes. Foi precisamente o que este salmista tinha feito - de ler tinha passado a meditar. Como Lutero, Davi tinha sacudido cada árvore frutífera do jardim de Deus, e colhido ali frutos de ouro. "A maioria", diz Martin Boos, "lê sua Bíblia como vacas no capim denso, que esmagam sob os pés as flores e ervas mais finas".

Teme-se que nós façamos a mesma coisa demasiadas vezes. É um jeito infeliz de tratar as páginas  de inspiração. Possa o Senhor evitar que repitamos esse pecado enquanto lemos este salmo inestimável.

Há um desenvolvimento evidente em seu tema. Os versículos mais do início são de um tipo que se presta à hipótese de ter sido o autor um homem jovem, enquanto que muitas das passagens mais adiante só poderiam ser sugeridas pela idade e pela sabedoria. Em cada porção, no entanto, há o fruto da experiência profunda, observação cuidadosa e meditação séria. Se Davi não o escreveu, outro crente com exatamente a mesma mente de Davi deve ter vivido, e ele deve se ter dedicado a salmodia com igual ardor, e ter sido um apreciador igualmente entusiasmado da Escritura Sagrada.

Nosso melhor aproveitamento desta composição sacra advirá de colocarmos nossa mente em intensa afinidade com o seu tema. A fim de fazer isso, deveríamos decorá-lo. A filha de Philip Henry escreveu em seu diário: "Ultimamente fiz algum esforço para aprender de cor o Salmo 119, e fiz algum progresso nisso". Ela foi uma mulher sensata, piedosa. Feito isso, devemos considerar a plenitude, a clareza e a doçura da palavra de Deus, já que por tais reflexões talvez sejamos estimulados a sentir um afeto caloroso por ela. Como são favorecidos os seres a quem o Deus Eterno já escreveu uma carta com sua própria mão e estilo! Que ardor de devoção, que diligência de composição pode produzir um tributo digno dos testemunhos divinos? Se algum dia tal tributo saiu da pena de um homem, é este Salmo 119, que bem pode ser chamado o solilóquio de uma alma santa diante de uma Bíblia aberta.

Este poema sacro é uma pequena Bíblia, a Escritura condensada, uma magnitude de escritura bíblica, Escrito Sagrado reescrito em emoções e ações santas. Benditos são aqueles que podem ler e entender esses aforismos santos; encontrarão maçãs neste verdadeiro Hespério, e virão a considerar que este salmo, como toda a Escritura que ele louva, é uma ilha de pérolas, ou, melhor ainda, um jardim de doces flores.
 
Charles Haddon Spurgeon
 
/Alef da Silva

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